Vovós on the road! | Eu & Nós

Vovós on the road!

Você se acha velho, já foi meu tempo, isso é pra garotada? Então mire-se no exemplo de três mulheres que trocaram as agulhas de tricô pela estrada!

Por Mariana Viktor

senhora no volante de um jeep troller“Você tá doida!” foi o comentário geral quando a professora aposentada Heloísa Marques comunicou aos familiares e amigos que pretendia viajar da ensolarada Fortaleza até a congelada Ushuaia, na Argentina.

– Ué, mas professoras fortalezenses não viajam a Ushuaia?

Viajam, só que poucas fazem isso sozinhas, aos 57 anos e… de jipe! Sem falar que Heloísa ainda queria dar uma desviadinha, na volta, para conhecer o lugar mais seco da Terra: o deserto de Atacama, no Chile. A viagem aconteceu em 2000, e quatro meses e 29 mil quilômetros depois (mais que o percurso da Coluna Prestes ou da Grande Marcha Chinesa), a professora concluiu que era isso que ela queria da vida: cair na estrada!

Passados oito anos (a matéria foi publicada em 2008), Heloísa, 65, professora aposentada da Universidade Federal do Ceará, dois casamentos, três filhos e seis netos, continua on the road – agora acompanhada das irmãs. Dentre outras aventuras, elas já estiveram na Venezuela (2001), no Alasca (2003) e percorreram a famosa ferrovia Transiberiana (2006). Heloísa também transformou sua paixão pela estrada no Projeto Avós no Terceiro Milênio (www.vovosmilenio.pro.br), que incentiva mulheres como ela a trocar as agulhas de tricô pelo volante de um jipe estradeiro.

Uma das viagens mais marcantes aconteceu em 2005, quando Heloísa e duas de suas irmãs visitaram a Cordilheira Branca, no Peru – um lugar ainda pouco conhecido dos turistas. “A cordilheira tem 20 quilômetros de largura, 180 de extensão e mais de 50 montanhas acima de 5.500 metros”, diz Heloísa. “É repleta de geleiras e lagos fantásticos, além de ruínas pré-incaicas, tudo coroado pelo pico Huascarán, com 6.768 metros, a mais alta montanha da faixa tropical em todo o mundo. A gente tinha que ver de perto!”

A partida

A largada oficial foi em Cuzco – Heloísa viajou de jipe com Tamara (56, economista aposentada), via Bolívia, e Cristina (62, professora de matemática) se reuniu à dupla em Machu-Picchu. “Saímos bem cedinho. O jipão (um Troller 4×4, com direção hidráulica e ar condicionado) chegou a dar uma engasgada, mas pegou sem problemas”, conta Heloísa. O carro engasgar é comum em altitudes como a de Cuzco porque há menos oxigênio disponível, o que prejudica a combustão e pode gerar uma perda de potência de 20% no motor.

Depois de subir e descer montanhas por várias horas, o trio fez um pit-stop na cidade de Abancay para tomar uma sopa de galinha, a especialidade da região. “Nossa chegada surpreendeu o pessoal”, lembra Heloísa. “Afinal, não é sempre que aparecem três mulheres num jipe amarelo cheio de adesivos. Passada a surpresa, acho que foram matar a galinha porque a sopa demorou… mas valeu a pena”. Servida numa grande tigela, com um pedaço de frango, batatas inteiras e um ovo cozido, acompanha um pratinho com grãos gigantes de milho. “A gente vai tomando a sopa e mastigando os grãos torradinhos. Uma delícia! Renovamos as forças!”

Soroche

Não demorou para el soroche dar o ar da graça. “É o nome local para o mal-estar que se costuma sentir na altitude, principalmente acima de 3 mil metros”, explica Heloísa. Como o ar é rarefeito, o organismo de quem vive no nível do mar precisa produzir rapidamente glóbulos vermelhos para captar mais oxigênio – o que pode causar enjoo  sonolência ou tontura. “O segredo é subir aos poucos, para o organismo se adaptar naturalmente. Por isso quem viaja por terra sofre menos do que alguém que vai de avião”.

Para enfrentar o soroche, os peruanos recomendam tomar chá ou mascar folhas de coca. “Não sei se funciona. O melhor mesmo é evitar movimentos bruscos e caminhar devagar”, aconselha Heloísa. Também há remédios para combater os efeitos da altitude – como o Sorochepills, encontrado em qualquer farmácia. “Quem tem pressão alta, como eu, deve visitar o médico antes de viajar, já que nos primeiros dias de altitude a pressão sobe mesmo. Depois baixa, mas os batimentos cardíacos seguem elevados”.

Quando caiu a tarde apareceu outro acompanhante fiel dos turistas andinos: o frio. “A 3.800 metros, ele chega de repente quando o sol se põe”, diz a professora. “Estávamos geladas, exaustas, famintas, a Cristina mareada por causa da altitude, e decidimos pernoitar no primeiro vilarejo: Puquio”.

O que salvou a noite foi um banho quente e um delicioso pollo a la plancha (frango grelhado) com verduras no restaurantezinho em frente ao hotel. “Caímos num sono meio morgado enquanto escutávamos alguém cantando músicas típicas”, lembra Cristina. “Era época das Fiestas Patrias, que celebram a independência do país, e todas as cidades comemoram com desfiles e cantoria. Os peruanos adoram festa e são muito hospitaleiros!”

Curvas e terremoto

No dia seguinte, refeitas, as aventureiras fizeram o desayuno (desjejum) – café com leite, pão caseiro, queijo e huevos revueltos, ovos mexidos – e botaram o jipe na estrada para outro desafio: descer 3 mil metros em apenas 36 quilômetros, até Nazca. São curvas muito fechadas e penhascos altíssimos. O cenário também inquieta. “É tudo árido, um grande deserto de montanhas… e muita poeira! Quando chegamos a Nazca e pegamos a Rodovia Pan-Americana, estávamos destruídas”, resume Cristina.

Quem vai para a Cordilheira Branca precisa passar próximo a Lima e enfrentar o trânsito intenso da Pan-Americana. “Esgotadas, preferimos dar um tempo num hotelzinho de San Vicente de Cañede, um point de surfistas à beira do Pacífico”, conta Heloísa. Para matar a fome, ceviche de corvina. “É um prato típico do Peru: peixe cozido no limão e temperado com cebola, que se come frio – muito bem acompanhado pela Cuzqueña, a melhor cerveja do país!”

No meio da noite, um susto: o quarto tremendo, a cama sacudindo e um barulho forte que vinha do chão.

– Tá tudo tremendo!

– É um terremoto, Heloísa!

– Um o quê?!

– Um terremoto, mulher!

Assim como veio, o tremor de terra passou. “Não sei quanto tempo durou, talvez uns três minutos”, lembra Heloísa. “Depois soubemos que ocorrera um terremoto no Japão e que ele tinha sido sentido ao sul de Lima, onde estávamos”.

Huaraz

Logo de manhã, passado o susto, pé na estrada! Deixando os arredores da capital, o jipe avançou 350 quilômetros para o norte até Pativilca, onde saiu da Pan-Americana em direção a Huaraz. “É uma subida forte com curvas fechadas, como todas as estradas andinas, e ainda pegamos neblina”, relata Heloísa. “Mas a parada para o almoço compensou!”

O peixe é uma das bases da alimentação peruana, e em toda Cordilheira Brancaa grande especialidade é a truta. “Escolhemos truta a la plancha com purê de quinoa, um cereal miudinho supernutritivo que substitui o arroz”, fala Cristina. “Outro prato delicioso é o cuy, espécie de porquinho-da-índia que é servido inteiro, recheado”. Muito consumido na região de Arequipa, o cuy é tão importante que aparece no lugar do pão em pinturas que retratam a Última Ceia.

Barriga cheia, as três supervovós encararam uma nova subida até 4.200 metros e entraram no Callejón de Huaylas, entre a Cordilheira Branca e a Negra – um vale belíssimo cortado pelo rio Santa. “De repente nos deparamos com um imenso campo amarelado e aquele conjunto de picos nevados – uma paisagem de tirar o fôlego”, diz Heloísa. Valia um brinde! “Abrimos nossa sacola de bebidas e erguemos as taças de vinho na direção da Cordillera”, relembra Heloísa. “Chegar nesse fim de mundo… Bando de mulheres danadas!”

É no Callejón que estão as cidades mais importantes, incluindo Huaraz, capital da região de Ancash. “A cidade celebrava as Fiestas Patrias quando chegamos: tinha banda, desfile e uma feira com artesanato peruano – peças de lã rústica e cerâmica”, lembra Heloísa. “Huaraz é grande para os padrões da região, acolhedora e muito organizadinha: há agências de turismo, táxi, bancos, caixas eletrônicos”.

Depois de uma circulada, Heloísa, Cristina e Tamara se decidiram pelo hotel “Los Portales”, que acharam bem confortável. “Quando entramos, o señor nos olhou meio desconfiado e disse que só podíamos ficar uma noite, mas depois chegou a nos oferecer quartos separados pelo mesmo preço”, conta Cristina.

Huascarán e Chavín

No programa do dia seguinte, uma excursão imperdível ao Parque Nacional Huascarán. A primeira parada foi no Llanganuco, um deslumbrante lago azul entre as montanhas. Em seguida as irmãs desceram até o vilarejo de Yungay, reconstruído após um deslizamento de terra que matou seus 18 mil habitantes, em 1970. “Foi nessa tarde que nos deparamos com a montanha gigante, el Huascarán, com seu topo coberto de neve”, diz Heloísa. “O pico muda de cor à medida que cai a tarde: branco, azul, amarelo, laranja… dizem que são 13 cores. Inesquecível!”

pico de huascarán, no perúCom o Huascarán à frente, as viajantes estenderam a toalha para um piquenique. “De repente, saída do nada, apareceu uma senhora índia com uma criança”, recorda Cristina. “Nós a convidamos para sentar e comer conosco – tínhamos queijo, frutas e biscoitos. Conversamos como se nos conhecêssemos há muito tempo – era uma avó como nós, com seu netinho. De tudo o que vi na viagem, esse encontro foi o que mais marcou”.

Outro lugar para assinalar na agenda são as ruínas de Chavín de Huántar. “A cultura Chavín floresceu por volta de 1.000 a.C. e foi destruída pelos incas”, explica Heloísa. “Chavín de Huántar era um local de peregrinação e se tornou famoso por seu labirinto de túneis subterrâneos, em cujo centro existe uma enorme e misteriosa escultura: o Lanzón de Chavín”.

Puya raimondii e Lima

Quase no fim do Callejón de Huaylas fica o povoado de Caraz Dulzura, que deve o nome – Doçura – a seus maravilhosos doces. “Comemos até passar mal: quilos de doce-de-leite, balas de mel e biscoitos de massa folheada”, confessa Cristina. E foi em Caraz que um taxista garantiu às vovós estradeiras que podia encontrar uma Puya raimondii.

“É a maior bromélia do mundo e só existe nos altiplanos andinos”, comenta Heloísa. “Ela tem um pendão onde brotam até 20 mil flores, atinge 10 metros de altura e o tronco espinhento alcança dois metros de diâmetro”. Depois de horas sacudindo numa estradinha pedregosa, uma planície e lá estavam elas. “Pareciam grandes velas contra o horizonte. Embora estivessem secas – a época da floração terminara –, foi uma emoção muito grande ficar frente a frente com uma das espécies mais antigas do planeta, um verdadeiro fóssil vivo”.

O fim da viagem foi em Lima – pelo menos para Cristina, que tomou um avião de volta para o Brasil porque suas férias tinham terminado. Para Heloísa e Tamara, porém, a aventura continuou. “Fiquei sabendo que meu marido estava vindo para Lima e faria conosco o último trecho da viagem: Cañon do Colca, Arequipa e o Salar de Uyuni, na Bolívia”, diz Heloísa.

Mas essa já é outra história…

(versão reduzida de matéria publicada originalmente na revista Viagem e Turismo em 2008)

SOBRE O AUTOR

A Mariana é formada pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC). Especializada em Coaching de Relacionamento e Emotional Freedom Techniques (EFT), é certificada em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard. Jornalista, dedicou-se às áreas de Comportamento, Saúde Holística e Sexualidade, sendo pós-graduanda em Terapia Familiar e coautora do livro Saúde Emocional (Editora Ser+). Colaboradora do blog da Sociedade Brasileira de Coaching, escreveu para as revistas Vida Simples, Galileu, Marie Claire, Bons Fluidos, Educação, Ana Maria, Viver Psicologia e Claudia, entre outras. Foi colunista das revistas Viva Saúde, Corpo a Corpo e Meu Nenê. Assina a coluna Dica da Mari na revista Atrevida.

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2 Comentários

  • 17/8/2014 - 18:35 Paulo Cezar

    Parabéns pela iniciativa que vocês tiveram.

    • 22/3/2015 - 19:38 Marco Antonio Beck

      Valeu, Paulo!

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