Carlos e Amarílis estavam casados fazia três anos. Parceria, cumplicidade, a vida andando bem. Tão, que os dois estavam sempre grudados. Íntimos, amigos, devassados do bom que era estar junto. Falavam sobre tudo menos sobre esse perto que, por excessivo, foi lentamente desbotando o vermelho até deixá-lo cor-de-rosa.
Uma tarde Amarílis levou uma cantada na rua.
Vulgarzinha, inofensiva, nada demais, você tem uma bunda de lamber feito sorvete. Ela embraveceu, o cara acelerou a moto, ela esqueceu a braveza e sorriu. Sem mais nem menos, de repente, molhada.
Amarílis quase sentiu culpa, mas ao invés chegou em casa naquele fim de tarde e subverteu a rotina. Não preparou jantar, não ligou para o marido, não lembrou de molhar as folhagens. Tomou um banho demorado, Otis Redding ao invés da TV, as mãos como se descobrissem o corpo pela primeira vez.
Depois aquela saia curta fechada há três anos na gaveta, meias de seda, salto, a blusa decotada que ela adorava e ele odiava porque os seios ficavam assim salientes, apertados, súbitos naquele V.
E só, mais a maquiagem de puta.
Quando Carlos chegou não havia jantar e Otis Redding ainda cantava na penumbra da sala. Amarílis fumava recostada no sofá, as pernas compridas cruzadas, o V entreaberto. Se estava tímida ou teve medo que o marido caísse na risada, foi como se não.
Carlos quase disse qualquer coisa cotidiana quando a mulher falou olá. Mas ela estava estranha e ele respondeu um olá baixinho, de garganta seca. Ela o olhou inocente como aquela vampira adolescente de True Blood – a Jessica – ao contemplar o primeiro pescoço.
– Você quer brincar? – perguntou.
imagem: Aimanness

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Excelente história. A rotina as vezes acaba por despertar certos desejo. Parabéns.