Todo mundo é vazio! | Eu & Nós

Todo mundo é vazio!

O nó é que a modernidade ou a pós-modernidade transplantou a noção de vazio da Física pra Psicologia e hoje é chique dizer que eu tenho pilhas de dúvidas e raríssimas certezas.

Por Marco Antonio Beck

dedal de costura com conta-gotasVocê é vazio!

É sério, mas console-se: todo mundo é.

Somos feitos de células que são compostas por moléculas que são formadas por átomos – um núcleo com o próton e o nêutron, o elétron girando em volta, lembra?

Pois se suprimirmos o espaço entre o elétron e o núcleo dos átomos da humanidade, toda gente da Terra cabia num dedal de costura.

A imagem é do francês René Barjavel num livro arrepiante chamado A Fome do Tigre (Editora Artenova, 1973, tradução arrepiada da Clarice Lispector, procure nos sebos). Como o livro é de 1966 e a população do planeta aumentou, talvez hoje fosse um dedal e meio, mas é fato:

somos feitos de vazio!

O monitor pra onde você olha e os olhos que olham, as teclas e os dedos, “salsichão, arroz, feijão, muçulmano e cristão, a mercedes e o fuscão, a patroa do patrão”, a Rita Lee e o Felipão… tudo é feito de vazio. Empty. Leer. Пусто. Vide. Κενό. Pode escolher o idioma.

Feixes de elétrons invisíveis turbilhonando em torno de núcleos quase inexistentes em meio ao nada imponderável. É isso que, cientificamente, somos.

O nó é que a modernidade ou a pós-modernidade (ou a pós-pós-modernidade, nem sei mais) transplantou essa noção de vazio da Física pra Psicologia e hoje é chique dizer que eu tenho pilhas de dúvidas e raríssimas certezas – todas bregas. Deus virou um era-uma-vez, as grandes causas caíram como o muro de Berlim, as ideologias de tão sólidas desmancharam-se no ar, o pneu murcho do nós sabemos foi trocado pelo pneu estufado do sei lá eu.

Mas fico pensando com meu zíper (a pós-pós-modernidade tá acabando com os botões) se o que vale pra Física vale pro mundo interior.

Na prática você ocupa o espaço de fazer sentido dentro de você ou ele fica à disposição de terceiros? Cada sim alheio te ergue e cada não de alguém te derruba ou você confia no próprio sim, brotado da sua experiência e da sua sensibilidade? A verdade dos outros parece mais apetitosa e respeitável ou você aprecia o sabor das coisas que pensa, sente, faz?

Se você fechasse os olhos por 5 segundos pra se re-conhecer e ao abri-los fizesse uma declaração sobre você, qual seria?

Uma frase. Preencha os pontinhos em voz alta pra se ouvir.

Eu declaro que ……………

Se a declaração fez você sorrir pra si mesmo de autoalegria, então você escapuliu do dedal do Barjavel.

Se não, pense se alguém te conhece tanto e tem tanta intimidade com seu jeito de ser que preencha esse vazio mais do que você mesmo pode preenchê-lo.

Fique com você.

Entre a Física de fora e a de dentro, quan(tic)a diferença!

imagem: Robert Couse-Baker

SOBRE O AUTOR

Formado pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), o Marco é practitioner em Programação Neurolinguística (PNL) e Emotional Freedom Techniques (EFT). Certificado em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard, é coautor do livro Saúde Emocional (Editora Ser+), colaborador do blog da Sociedade Brasileira de Coaching e colunista convidado do Obvious, o maior site colaborativo de cultura em língua portuguesa. Estudou psicologia junguiana, noética e pensamento sistêmico, além de trabalhar como ghost-writer – que é quem coloca em palavras as ideias de muitos autores que você lê. Criou junto com a Mariana o Eu & Nós, primeiro site brasileiro sobre Coaching de Relacionamento.

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2 Comentários

  • 7/12/2011 - 11:06 Gígio

    Se eu segurar um copo com água e perguntar a você “Este copo está vazio?” você dirá “Não, ele está cheio de água.” Porém, se eu derramar a água e perguntar a você novamente, você diria “Sim, ele está vazio.” Mas vazio de quê? Vazio significa estar vazio de alguma coisa. O copo não pode estar vazio de nada. “Vazio” não tem significado a não ser que você saiba “vazio de quê.”
    Os cinco skandhas são os cinco elementos que perfazem um ser humano. São, na verdade, cinco rios fluindo dentro de nós: o rio da forma, significando nosso corpo; o rio dos sentimentos; o rio das percepções; o rio das formações mentais e o rio da consciência. Eles estão sempre fuindo em nós.
    Então, de acordo com Avalokita, quando ele olhou profundamente dentro da natureza destes cinco rios, de repente ele viu que todos eles eram vazios. E, se perguntarmos, “Vazios de quê?” ele tem de responder. E foi isso que ele disse: “Eles são vazios de um self separado.” Isto quer dizer que nenhum destes cinco rios pode existir sozinho, por si mesmo. Cada um dos cinco rios tem de ser feito pelos outros quatro. Eles têm de coexistir, eles têm de interser com todos os demais.

    Do livro, O Coração da Compreensão – Thich Nhat Hanh

    Desculpe pela longa intromissão, mas creio que isso se relaciona, acaba se intersendo com teu texto.

    • 21/3/2012 - 16:51 Marco Antonio Beck

      Longas intromissões, longos pensamentos, longo sentir, longas rugas no rosto da alma que se embeleza de tê-las porque vira alma sábia. Sem desculpas. Rs.

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