Tinha deixado de ser eu | Eu & Nós

Tinha deixado de ser eu

“Cláudia, como você se transformou numa fêmea e eu virei uma tia se sempre fui a bambambam e você era a nhemnhemnhem?”

Por Mariana Viktor

duas amigas no shopping

Semana passada reencontrei a Cláudia. Eu não a via há quanto tempo? Dez, quinze anos? Tínhamos todas vinte naqueles dias doidos e eu era a mais doida de todas. Cláudia, a mais careta. Eu dizia sim pra tudo – sexo, rock’n’roll, caronas, viagens, mais dois namorados, mais três biritas. Já o apelido da Cláudia era Aiachoquenão. Mesmo sem ser exatamente amigas éramos da mesma turma, e quando cada uma foi para um lado casar e ter filhos, nos extraviamos todas de todas. Eu nem lembrava da Aiachoquenão até parar sábado passado na frente de uma loja, no shopping, e ver refletido na vitrina aquele rosto parecido com um rosto que eu vi once upon a time. Era a Cláudia.

Cláudiaaa! Anaaa! É-você-mesma-menina-quanto-tempo-como-vai-a-vida-puxa-você-não-mudou-nada! Sorridentes, dividimos um chope e meia hora de prosa na praça de alimentação, mas mentimos. Mudáramos ambas.

Cláudia tinha rejuvenescido. Os olhos pareciam maiores e mais brilhantes do que eu lembrava. O mesmo com o sorriso. O jeito de andar, a voz, até as roupas, o perfume, os brincos e a bolsa pareciam feitos sob medida para a nova Cláudia em que a Cláudia se transformara. Surpresa, quase constrangida, vi um homem cruzar entre as mesas sem desgrudar os olhos dela – aliás, um homem não, um gato! E, ainda mais constrangida, vi a Cláudia corresponder com um sorrisinho dicandiboca que eu daria nos velhos tempos, mas não agora. Agora nem pensar.

E foi assim, no meio do chope, que percebi que eu me transformara numa Aiachoquenão.

Depois do encontro – você-tá-ótima-foi-bom-te-rever-a-gente-se-fala-me-liga-hein? – eu caminhei tranquilamente até o estacionamento do shopping, sacolas de compras na mão, me tranquei no carro, segurei o volante e tive um surto.

O que aconteceu com a Cláudia nesses anos?!… E o que aconteceu comigo?!…

Nós duas casamos, temos bons maridos, bons filhos, bons empregos, bons amigos, minhas pernas continuam mais bonitas que as dela, e de repente minha autoestima pula num buraco negro e some de mim.

Então lembrei de uma coisa que a Cláudia disse no meio do chope:

– Eu sempre quis ser como você, Ana…

Fui para casa com aquilo ecoando na cabeça. Ecoou a semana inteira. Acho que Dagoberto percebeu, as crianças perceberam, os vizinhos, o caixa da padaria, minha mãe pelo telefone, o periquito, os peixinhos dourados. “Eu sempre quis ser como você, Ana…” A Cláudia sempre quis ser como eu… e agora eu é que queria ser como ela. Quem sou eu, afinal?

Hoje de manhã, a vida passada a limpo e nenhuma resposta, liguei para a Cláudia. Escondida, insone, o cu na mão, perguntei se ela tinha tempo de falar comigo, pelo telefone mesmo porque eu não tinha coragem – e usei essa palavra mesmo – de encontrá-la. Ela disse que sim-claro-Ana-o-que-aconteceu. Em conta-gotas, pisando em ovos, envergonhada, fui falando em círculos, tangenciando, cheia de entrelinhas, sem conseguir perguntar simplesmente: “Cláudia, como você se transformou numa fêmea e eu virei uma tia se sempre fui a bambambam e você era a nhemnhemnhem”?

Então, lá pela trigésima vírgula da décima-sétima frase enrolada, Cláudia me interrompeu. Podia ter caído na risada, disparado ironias, saboreado sua vingança, mas disse apenas: “Ana, eu mudei porque não tinha nada a perder…” Podia ter completado: “… e você não mudou porque tinha que manter a pose”.

Desliguei o telefone estranhamente aliviada. Oca, mas esclarecida. Eu me perdera de mim em nome de uma personagem que inventei para ser aprovada pelos outros e era adubada pela lembrança colorida mas empoeirada dos bons tempos.

Não sabia bem por onde, mas ia mudar.

Então pensei em lingeries. Lingeries de renda preta. Lingeries de renda preta indecentes. Era um dia legal para ir ao shopping e rumei para a garagem lembrando de uma música da Rita Lee. Meu Doce Vampiro, talvez.

Lingeries compradas, eu tomaria um chope. Eu comigo, quietinha, com um sorriso dicandiboca. Por que não?

SOBRE O AUTOR

A Mariana é formada pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC). Especializada em Coaching de Relacionamento e Emotional Freedom Techniques (EFT), é certificada em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard. Jornalista, dedicou-se às áreas de Comportamento, Saúde Holística e Sexualidade, sendo pós-graduanda em Terapia Familiar e coautora do livro Saúde Emocional (Editora Ser+). Colaboradora do blog da Sociedade Brasileira de Coaching, escreveu para as revistas Vida Simples, Galileu, Marie Claire, Bons Fluidos, Educação, Ana Maria, Viver Psicologia e Claudia, entre outras. Foi colunista das revistas Viva Saúde, Corpo a Corpo e Meu Nenê. Assina a coluna Dica da Mari na revista Atrevida.

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4 Comentários

  • 29/8/2011 - 17:41 Mia

    É, às vezes acontece de nos perdermos no personagem. Zona de perigo.

    • 31/8/2011 - 16:36 Mariana Viktor

      É muita pecinha nesse lego da vida, né não? Temos que ser de circo.
      Beijo Mia, obrigada pela presença.

  • 30/8/2011 - 13:29 SamantaSammy

    Olá querida chegueiiii !!!

    como-vai-você-que-bom-estar-aqui-adorei-tudo-vamos-prosear !!! kkkk
    Que texto delicioso ! Adorei !
    Me identifiquei bastante pois esta é uma das questões que anda rondando meu apartamento, meu quarto, meu banheiro, meu espelho… Mas não foi com um encontro como na postagem e sim quando resolvi dar uma limpa do meu armário…. percebi que já não usava mais os sapatos altíssimos, as lingeries ousadas, as bijoux poderosas de antes… mas não porque não gosto mais e sim porque em algum momento, me perdi de mim mesma… E não gosto de quem sou agora, eu gosto daquela !!! Mas será que ainda sou aquela ? Será que posso ser as duas ?…. e nos trancos e barrancos, estou tentando ajeitar tudo, mas uma coisa é certa, do jeito que tá, não dá, não quero ser esta aiachoquenão matrona que me transformei… mas quero levar dela bons pontos da personalidade… enfim, vamos que vamos !!!
    Muito envolvente a sua maneira de escrever !!

    Um beijãooo e boa semana !

    • 31/8/2011 - 16:58 Mariana Viktor

      Sam-querida-vc-está-linda-beijinho-adorei-ver-vc-aqui!!! rs

      Hm, estou recebendo recados pra vc por aqueles feeds…rsrs

      Os ets (haha, ai, viciei nessa bobagem) mandaram dizer uma frase do Walt Whitman: “Me contradigo? Pois bem, me contradigo! Contenho multidões!”
      Vc é as duas, as três, as quatro… que vão mudando de lugar conforme o momento, as circunstâncias. Eu ando numa fase de havaianas, cara lavada. Mas quando isso não estiver mais me fazendo feliz, chamarei minha tigresa (ui) de volta. Ou quem sabe uma possa estar aí durante o dia e a outra depois das 20hs? rs

      Talvez o segredinho seja dizer “aiachoquesim” pra todas essas mulheres! Cada uma complementando a outra, todas trocando aprendizados, ideias, experiências, assumindo a dianteira no momento propício: a menina, a criança, a mulher, a fêmea, a guerreira, cada uma com seu espaço sagrado. Parece uma combinação feliz, né? =)

      Sam, minha querida anjinha (e diabinha, pq não? kkk) de luz, amei demais te ver aqui!!!!

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