Tédio?… Bunda nele! | Eu & Nós

Tédio?… Bunda nele!

Ou como o traseiro de uma filósofa pode ser o veneno antimonotonia de que falava o Cazuza.

Por Marco Antonio Beck

foto de simone de beauvoir nua de costasPra quem não sabe, o fotógrafo carioca Fernando Rabelo publicou no seu perfil do Facebook a foto acima, que mostra o outro lado, digamos assim, da escritora e ativista Simone de Beauvoir (1908-1986), parceira de Jean Paul Sartre. Por causa da foto, tirada em 1952 pelo norte-americano Art Shay e considerada afrontosa por alguém que decide o que podemos e o que não podemos publicar no Face, Rabelo teve seu perfil suspenso por alguns dias na rede social.

O episódio seria irrisório se não fosse emblemático duma conclusão nada irrisória:

só o risco nos faz saborear a vida e prezar a liberdade.

Lembra como você ficava esperto e era cuidadoso antes de conquistar seu grande amor? O que movia você era o risco de perdê-la ou perdê-lo. Ou de como saiu do médico celebrando o sol quando soube que aquela tosse de seis meses não era nada de grave? O que o fez olhar pro mundo com os olhos brilhando foi o risco afastado de que a tosse fosse um câncer.

Assim também com a espécie. Os Anos Vinte foram uma explosão de criatividade e de novos costumes num mundo devastado pelo horror da Primeira Guerra Mundial – estivemos em perigo e nossa resposta foi alargar o espaço da liberdade. A mesma coisa aconteceu ao final da Segunda Guerra, quando a sombra do cogumelo encobriu o planeta. Os filhos dos inventores da bomba deram uma banana para o american way of life e iniciaram um movimento libertário que começou nos Anos Cinquenta com os poetas da geração beatnik – Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs, dentre outros – e deixou-nos mais cabeludos e livres na década colorida dos Sessenta.

O próprio Renascimento, que botou as manguinhas de fora lá no final do século 13, foi uma resposta criativa à estagnação cultural da Idade Média e à opressão do pensamento patrocinada pela Igreja e suas inquisições. De novo, quisemos liberdade.

Mas.

Mas o perigo da Inquisição passou, o da Primeira Guerra, o da bomba iminente, e voltamos a bocejar. Tédio é uma espécie de palavra de ordem na boca dos garotos e garotas de hoje.

Mó tédio, meu!

Há tédio porque a sensação é de que não há risco – embora os riscos sejam muitos e graves, começando pelo número de horas que seu filho passa diante do computador ao invés de exercitar o corpo, passando pela mancha de óleo no mar de Campos e pela ascensão da direita americana e terminando na suspensão do perfil do Fernando Rabelo no Facebook.

Então estou declarando:

Mr. Facebook, eu quero ver a bunda da Simone de Beauvoir no perfil do Fernando!

Porque, além do singelo fato de que é uma bela bunda e merece ser vista, a Simone escreveu, falou e lutou a vida toda para que eu tivesse o direito de publicar liberdade!

imagem destaque: andres.thor

SOBRE O AUTOR

Formado pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), o Marco é practitioner em Programação Neurolinguística (PNL) e Emotional Freedom Techniques (EFT). Certificado em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard, é coautor do livro Saúde Emocional (Editora Ser+), colaborador do blog da Sociedade Brasileira de Coaching e colunista convidado do Obvious, o maior site colaborativo de cultura em língua portuguesa. Estudou psicologia junguiana, noética e pensamento sistêmico, além de trabalhar como ghost-writer – que é quem coloca em palavras as ideias de muitos autores que você lê. Criou junto com a Mariana o Eu & Nós, primeiro site brasileiro sobre Coaching de Relacionamento.

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