Quando éramos crianças quem mandava era a imaginação. As dobras do cobertor viravam estradas, preparávamos comida de mentirinha para as bonecas, tinha até amigo imaginário. Depois que crescemos vieram as responsabilidades e a imaginação parece ter mudado de endereço: só conta o razoável, o certinho, o um-mais-um-são-dois, tudo bem pé no chão. Essa seriedade, claro, é necessária em muitas áreas da vida, só que carregada para a cama deixa a relação triste e desanimada como criança que não brinca.
O prazer sexual boceja para o razoável, detesta rotina e seu um-mais-um não tem nada de ciência exata. Ele se alimenta, mais do que tudo, de criatividade. E o espaço para exercê-la é o delicioso – e polêmico – território da fantasia, partilhada ou não. “Polêmico porque muitas mulheres ainda não compreendem a importância da fantasia sexual como estimulante natural do desejo”, observa a psicóloga e terapeuta sexual Rachel Simone Varaschin, do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH). “Persiste uma atitude passiva e de autocensura na busca do prazer e, sem perceber, acabamos responsabilizando o parceiro ou parceira pela nossa insatisfação sexual”.
Autocensura, um estraga-prazeres
Na opinião da sex personal trainer Rita Rostirolla, que escuta confissões femininas em suas aulas e palestras, ainda somos vítimas da educação repressora que caracterizou as gerações passadas. “Dar vazão a fantasias mais ousadas, mesmo que só na imaginação, faz a mulher sentir-se vulgar. Elas me perguntam o que eu acho, como se fantasiar fosse algo absurdo e doentio. Respondo que o normal é ter fantasias, que não tê-las deixa a vida cinza e que esse cinza contamina tudo”.
Quando fantasiamos, acontece algo mágico: a imaginação erotiza, abre os canais de expressão da sensualidade, aflora o desejo encoberto pela rotina e nos faz recordar que somos fêmeas, mesmo sendo mães, esposas ou tias. “No mundo da fantasia erótica podemos criar e recriar, tudo é possível, todos os padrões e regras podem ser burlados – e isso não significa necessariamente realizar tais devaneios”, diz Rachel Varaschin. “Na imaginação, aliás, é possível vivenciar sem conseqüências as maiores (e muitas vezes impossíveis) fantasias femininas: ser seduzida por um cara rude mas gostosão (claro) num boteco de beira de estrada, transar em público, ficar com alguém do mesmo sexo, curtir dois homens ao mesmo tempo, ter noites tórridas com astros do cinema ou transar com um desconhecido no elevador”. Para Rachel, todas essas fantasias podem ser partilhadas com o parceiro, dependendo do conteúdo, do entendimento e da cumplicidade do casal.
Querido, tenho uma coisa pra contar…
A comerciante Marisa H., 33, casada, mãe de dois filhos, tinha uma fantasia que poucas revelariam, especialmente ao companheiro. “Uma noite tomei coragem e disse ao Rubens que sonhava ser uma prostituta de rua”, conta. “O coração batia na boca, mas não baixei o olhar e ele achou a idéia o máximo!” Então o casal começou a trocar e-mails para acertar os serviços que Marisa prestaria ao cliente, e o valor. “Ele achou que eu estava brincando quando falei em dinheiro, mas era pra valer”. Produzida, pernocas de fora, bumbum empinado, Marisa rumou para o local do encontro. “Meus joelhos tremiam. E se outro homem me abordasse antes do meu marido? E se algum conhecido passasse ali?” Mas deu tudo certo! Rubens cruzou de carro e levou a “prostituta” para um motel. E ela fez tudo o que ele quis – e que ela também queria. “A química foi perfeita! Ele não parecia o Rubens que eu conhecia e eu certamente estava bem longe da recatada esposa. Deliramos!”
Fantasiar é como tirar minutos de férias todos os dias. “Casais que brincam assim estão, sem perceber, construindo uma relação mais sólida”, observa a psicóloga Rachel Varaschin. “É como se fosse um tijolo a mais naquela estrutura, um segredo só deles”.
Segredos só seus
Mas as fantasias também podem permanecer secretas, como se pertencessem a um acervo particular da imaginação. “Não tem nada de errado em manter a fantasia em segredo já que isso não traz conseqüências e não envolve outras pessoas”, diz a sex personal trainer Rita Rostirolla.
A veterinária Clarisse R., 27, casada, morre de vontade de se entregar ao marido… e ao vizinho. “Queria os dois ao mesmo tempo, muito cúmplices, muito sacanas, abusando de mim”, confessa. “Sei que meu marido jamais concordaria e muito menos penso em insinuar-me para o vizinho, mas fantasiar a cena é uma delícia!”
(matéria que escrevi para a revista Máxima em setembro/2010)

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