O que será que me dá? | Eu & Nós

O que será que me dá?

Poucas músicas definiram tão bem o tesão como “À Flor da Pele”, do Chico Buarque: algo que perturba o sono, que queima por dentro, que não tem vergonha, governo, medida, remédio ou juízo.

Por Carolina Fernandes

 boca de mulher deslizando no peito de um homemO tesão é assim, essa força química com vontade própria que invade os sentidos, percorre a pele e independe de beleza ou de amor. É algo inexplicável no outro – seu cheiro, toque, olhar, voz? – que atrai e excita. O curioso é que nem sempre o tesão é acionado pela mulher ou pelo homem que imaginamos como ideal. Também podemos senti-lo por alguém com quem jamais nos envolveríamos emocionalmente.

E quando a pessoa que a gente ama não nos dá mais tesão?

Há quem desista, se acomode a um sexo por obrigação ou tente compensar essa falta buscando tesão em outras pessoas. Há até quem convença o parceiro ou parceira a ir junto.

Mas antes de qualquer opção mirabolante que envolva terceiros – e que pode trazer mais problemas sem solucionar o que realmente interessa – comecem pelo básico: o eu, o você e o nós. Vocês se dão bem? Têm afinidades? Gostam de viver juntos? Se entendem só pelo olhar?  Então há algo precioso aí: a força da cumplicidade para ousar ir além do que já foram. Além até de onde vocês poderiam ter ido quando havia aquele tesão incendiário inicial mas sobravam interrogações, inseguranças, bloqueios e desejos não-ditos que nunca foram satisfeitos.

A cumplicidade é justamente o que pode proporcionar o ingresso numa segunda e deliciosa etapa da relação: o resgate do que foi interrompido e bloqueado antes de chegar ao ápice. Mais do que filhos, cansaço ou falta de tempo, o que transforma o sexo em rotina, quase uma obrigação conjugal, é nunca ter compartilhado desejos secretos – que todos temos e raramente levamos pra cama por vergonha ou receio de ser mal-interpretados. Um casal que descobre fantasias parecidas raramente perde a vontade e o tesão.

E o tempo vira um aliado da relação, não um vilão.

E, antes que a voz repressora diga novamente “ah, isso eu tenho vergonha de sugerir”, lembre-se de que na cama não há nada sujo, feio ou imoral. O máximo que ele dirá é algo como “não, amor, não vou curtir fazer um streap com sunga de oncinha, mas a ideia de imitar um cafajeste me agrada”, enquanto ela dirá “não gosto de ser amarrada, mas adoraria experimentar uma venda de seda preta”.

Há também uma questão pessoal: muitas vezes o sexo vira um esforço porque nos preocupamos em despertar ou sentir tesão e nos esquecemos de simplesmente desfrutar as sensações prazerosas. Em vez de obrigar-se a “mostrar serviço”, saboreie sem pressa o toque, o beijo, o cheiro, o som da voz, a visão da pele arrepiada e dos contornos do corpo, como se o sexo fosse todo ele feito de preliminares.

Num dia, curtam com mais vagar a masturbação mútua, noutro a penetração com mais urgência, brinquem em lugares diferentes da casa, usem apetrechos de sex shops e deixem a onda de sensações crescer e fluir, sem interferência. O segredo é ressignificar os sentidos, aprimorando as próprias percepções e necessidades sexuais para reciclar o tesão de um jeito gostoso, saudável, vivo. Na maioria das vezes isso depende de cada um: se a beleza está nos olhos de quem vê, o tesão também está.

imagem: NeoGaboX

SOBRE O AUTOR

Carolina Fernandes é psicóloga, professora e supervisora do Curso de Especialização em Psicoterapia Focada na Sexualidade (CEPES) do Instituto Paulista de Sexualidade (INPASEX). Seu tema é isso mesmo que você está pensando... aliás, ela nos convida a pensar menos e sentir mais na hora do love.

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