O desejo acaba em casais felizes? | Eu & Nós

O desejo acaba em casais felizes?

Membro da Academia Americana de Terapia de Família e autora do polêmico “Sexo no Cativeiro” (Editora Objetiva), a terapeuta belga Esther Perel afirma que a verdadeira revolução sob os lençóis, no casamento, não está em abrir a porta do quarto para outros parceiros, mas em recuar um passo e perceber que a falta de desejo é diretamente proporcional ao excesso de proximidade.

Por Mariana Viktor

foto da esther perel

1) Em termos hormonais, o tesão acaba mesmo em dois anos ou nós é que acabamos com ele assumindo atitudes pouco eróticas ao longo do tempo?

Esther Perel: Um certo declínio é natural na medida em que a familiaridade e a segurança vão aumentando, mas sustentar o desejo ao longo do tempo é um ato intencional – um ato de imaginação. Se houve uma carga erótica inicial é muito mais fácil trazê-la de volta.

2) O resgate do desejo erótico pelo mesmo parceiro depende de quê?

E.P.: Nosso desejo é estimulado por novidade, mistério e incerteza. Eu acredito que o desejo ameaça escapar em todo casal e que podemos perder contato com o erótico em determinadas épocas de nossas vidas. Mas podemos trazê-lo de volta ao entrarmos em contato, junto de nosso parceiro, com a tripla dimensão da diversão, da curiosidade e da imaginação. A única exigência é a de que estejamos realmente presentes e interessados no outro – mas parece que é mais fácil fazer isso com alguém fora da relação.

Sustentar o desejo é um ato intencional.

3) Quais comportamentos mais ameaçam o desejo dentro do casamento?

E.P.: Os comportamentos que matam o desejo estão entre dois extremos: de um lado, controle exagerado e intromissão e, de outro, negligência e desatenção para com o parceiro. Complacência, preguiça e falta de cuidado, de privacidade e do senso de individualidade também contribuem para apagar o fogo, assim como a ausência de contato físico, de afeição e de sensualidade – que não é necessariamente sexual. Especialmente as mulheres necessitam daquele contato que não é focado na genitália. Policiar a imaginação erótica cria uma sensação de censura e inibição que estreita a cumplicidade sexual.

4) Se o desejo erótico e os sentimentos amorosos são incompatíveis na cama, o casamento em sua forma atual está em vias de mudar? Que mudança seria essa?

E.P.: Eu não afirmo que amor e desejo são incompatíveis. O que digo é que a diminuição do desejo geralmente é uma consequência imprevista do aumento da intimidade e da familiaridade, bem como da falta de habilidade para fazer com que nossa necessidade de aventura, inovação e inesperado exista no mesmo espaço que nossa busca por segurança, previsibilidade e conforto. Na tentativa de criar conforto e familiaridade, enfraquecemos a vitalidade erótica que traz excitação para a relação.

Antes o sexo pré-marital era inconcebível no Ocidente, agora é comum. Acho que surgirão arranjos para atender às novas realidades do casal contemporâneo. Hoje nossa expectativa de vida cresceu, permanecemos jovens por mais tempo, as relações têm a possibilidade de durar mais, temos muitos anos para viver após a infância. Muita gente hoje casa-se mais de uma vez ao longo da vida, alguns praticam a não-monogamia consensual e tudo isso sinaliza que estamos procurando maneiras de conciliar o erótico e o doméstico em nossas vidas.

 O desejo é estimulado por novidade, mistério e incerteza.

5) Para preservar casamentos felizes acabamos negando algo muito forte em nossa natureza: o tesão por outras pessoas. Como lidar com isso? Esse tesão reprimido pode acabar afetando negativamente o casamento?

E.P.: Para preservar e privilegiar as relações, muitos escolhem dizer não ao desejo por outros – mas a recusa não significa necessariamente uma negação desse desejo. Quando conhecemos nosso desejo e escolhemos livremente não liberá-lo, ele tem o poder para afirmar ainda mais nossa ligação principal. A liberdade que renuncia a outros não significa ignorá-los: essa é a chave.

Escolher livremente não agir de acordo com nosso desejo não é necessariamente prejudicial, mas negar a existência desse desejo pode ser até mais danoso. Alguns casais decidem assumir os desejos na fantasia ou na prática como forma de preservar a relação e não de desfazê-la.

6) Hoje fala-se em bissexualidade, troca de casais, e a mulher “exige” ter orgasmo. Ainda assim você sustenta que continuamos reprimidos e preconceituosos, e que transamos como nossos avós? Ou seja: não damos vazão ao nosso “bicho amoral” interno e essa autocastração, tanto para o homem quanto para a mulher, pode ser uma das causas da diminuição do desejo sexual no casamento?

E.P.: No passado, casamento e paixão eram coisas separadas. Hoje nossa expectativa procura encontrá-los no mesmo lugar e com a mesma pessoa. Só que, uma vez ultrapassado o êxtase inicial, fazer brotar o desejo em meio a uma relação familiar parece fora do alcance. No momento em que nos tornamos pais, por exemplo, parece muito mais difícil ser amante da mesma pessoa que compartilha a paternidade ou a maternidade conosco.

É fácil cair na armadilha do sexo papai-e-mamãe. Muitos ainda trazem velhas inibições, preconceitos e restrições para casa, quando podiam ser amantes selvagens fora das fronteiras do casal ou da família. Parece mais fácil deixar rolar quando as barreiras emocionais são menores, com alguém a quem somos menos ligados ou com quem não sejamos reprimidos por nossos papéis de esposa, marido, pai, mãe…

 É fácil cair na armadilha do sexo papai-e-mamãe.

7) Quais os principais sintomas de que o tesão começa a bater em retirada? Muitas vezes, quando se ama e é feliz, o casal tem dificuldade em perceber esses sinais.

E.P.: Escrever um livro sobre a perda do desejo em casais que não se dão bem seria óbvio. O que fez de Sexo no Cativeiro um fenômeno de vendas foi o fato de o livro revelar que, ao contrário de nossas expectativas, o desejo acaba em casais felizes.

Há uma relação paradoxal entre nossa necessidade de segurança e de previsibilidade, de um lado, e do desejo erótico por novidade, mistério e risco, de outro. Esta realidade não é um problema a ser resolvido, mas um paradoxo com o qual devemos conviver – e não são 5 baby-dolls, 10 passos ou 15 técnicas que vão resolver as coisas. O crucial é nossa habilidade em manter uma distância psicológica, um senso de separação, e negociar um espaço com liberdade.

Desenvolver um sentimento de expectativa, de espera, é um ingrediente essencial do desejo. Se somos muito próximos, se não há movimento algum, a percepção acerca de nosso parceiro se paralisa, congela. Ele se torna uma entidade fixa conhecida que nós mesmos criamos – e ainda reclamamos de que nada é novo e ficamos entediados. Mas se os parceiros são sempre como que desconhecidos e a incerteza é construída no amor, então o erotismo está muito mais próximo do que a maioria de nós se permite vivenciar.

* Versão integral da entrevista que fiz com Esther Perel para a matéria Cadê o Tesão que Estava Aqui?, publicada na revista Uma, edição 80, 2007.

Imagem: divulgação / imagem destaque: Fernanda do Canto

 

SOBRE O AUTOR

A Mariana é formada pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC). Especializada em Coaching de Relacionamento e Emotional Freedom Techniques (EFT), é certificada em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard. Jornalista, dedicou-se às áreas de Comportamento, Saúde Holística e Sexualidade, sendo pós-graduanda em Terapia Familiar e coautora do livro Saúde Emocional (Editora Ser+). Colaboradora do blog da Sociedade Brasileira de Coaching, escreveu para as revistas Vida Simples, Galileu, Marie Claire, Bons Fluidos, Educação, Ana Maria, Viver Psicologia e Claudia, entre outras. Foi colunista das revistas Viva Saúde, Corpo a Corpo e Meu Nenê. Assina a coluna Dica da Mari na revista Atrevida.

Comentários do Facebook

3 Comentários

  • 23/10/2011 - 22:05 SamantaSammy

    Olá querida !!!

    Uauuu, adorei esta matéria que trouxe pra nós !!
    Estou casada a alguns anos e sei bem que se não nos esforçarmos um cadinho, as coisas acabam mesmo ficando meio entendiantes, até porque conhecemos bem o jeito do parceiro na cama e tal, acabamos nos tornando previsíveis… por isso é sempre bom deixar a preguiça de lado e dar uma incrementada na sedução, não esquecer dos contatos diários, pequenos agrados, cuidar da aparência, sem se deixar levar pelo desleixo e tal, coisas simples mas que ajudam bastante !
    Adorei os esclarecimentos e as dicas, super úteis !! e sem dúvidas, funcionam !!

    Valeu por compartilhar conosco !!
    Amiga, pode me chamar de cabeçuda, mas fiquei meio perdida aqui pra achar os artigos mais recentes… onde está a data ?? huiahuia

    Desculpe o sumiço, mas estive 20 dias visitando a família, então deixei a blogosfera d elado pra aproveitar bem a companhia deles né :)

    Um beijãooooooooo e uma linda semana !!!

  • 6/11/2011 - 17:33 Mariana Viktor

    Samanta querida, adoro teus comentários, tua participação, tua franqueza, tua humanidade.

    Cabeçuda não rs. O blog virou site e mudou tudo mesmo. Agora vc pode ver as novidades ou no destacão ou nas categorias Pense Nisso, Na Prática, Sexo, na home mesmo – sempre o primeiro texto da esquerda pra direita.

    Expliquei ou compliquei? rsrs.

  • 15/5/2015 - 09:20 ronaldo

    Olá, bom dia! Adorei essa matéria. Foi fantástica, me esclareceu muita coisa. Sei que temos que trazer conforto, carinho, amor, segurança, mas nao podemos deixar de ter um lado meio cafajeste, sim, no bom sentido da coisa. Procurar ter sempre um espirito de aventureiro, mas sem fugir das nossas responsabilidades. Foi isso que eu entendi – valeu pelas dicas!

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