Epa, pense grande! | Eu & Nós

Epa, pense grande!

Um, o que você quer. Dois, o que você pensa. Três, o que sente. Quatro, o que faz. Pra vida fluir, essas quatro coisas precisam estar alinhadas. Faz sentido pra você?

Por Marco Antonio Beck

homem tentando encaixar as peças de um quebra-cabeça

Seu nome era Epaminondas, mas os poucos amigos o chamavam Epa. Tinha 33 anos, morava com a mãe, desde os 20 namorava Amélia e há 12 montava caixas numa fábrica de papelão chamada Papel Leão. E não haveria motivo pra citar o Epa não fosse o fato de ele descobrir numa terça, ao dobrar a 38ª caixa da manhã, que sua vida não fazia sentido.

Inquieto, chegou em casa e disse à mãe Amélia (sua mãe também era Amélia) que desta vez, ao contrário das outras seis, ia tirar férias em vez de vendê-las, começando amanhã. Enquanto Amélia mãe tinha uma crise nervosa, Epa ligou pra Amélia namorada e comunicou-a da decisão, e enquanto Amélia namorada também tinha uma crise, ele dispensou o sentimento de culpa e foi arrumar as malas.

São seis horas até a praia e já rodei metade do caminho, pensou enquanto pilotava sua Brasília amarela 79. Ele gastara sete horas até ali porque a Brasília tinha pifado três vezes e a polícia rodoviária o fizera parar outras quatro para multá-lo pelo mesmo número de motivos justos, mas Epa relevou: Férias são férias! E não pode piorar!

Podia.

Cinco minutos depois desabou um toró e Epaminondas ficou parado por duas horas no acostamento porque a Brasília não tinha limpa-brisa. Quando finalmente chegou à praia era noite, não havia vaga nos hotéis e ele teve de acomodar-se numa barraca com cheiro de tainha emprestada por um pescador caridoso. Depois de mais duas horas montando a barraquinha, procurou um orelhão pra avisar as Amélias (Epa abominava celulares) que estava bem. Fazia 16 horas que saíra de casa e elas deviam estar levemente surtadas. A ligação estava péssima, Amélia mãe tinha a voz rouca de angústia e Epaminondas só ouviu com clareza a palavra demitido antes de terminarem os créditos do cartão. Sentindo que o chão lhe faltava, lembrou que tinha esquecido de avisar o chefe de que ia tirar férias.

Sentindo que o ar também faltava, foi pegar mais um cartão pra falar com Amélia namorada, mas o cartão ficara no bolso da outra calça e ele percebeu de repente que estava a 400 quilômetros de casa, sozinho, incomunicável e demitido. Então seu velho parceiro, o sentimento de culpa, o abraçou e os dois escorreram até o meio-fio.

– Fundupoço?

Epa ergueu o olhar desolado. A dois passos estava o pescador que lhe emprestara a barraca com aroma de tainha.

– Fundupoço? – repetiu o homem, sentando também no meio-fio. Era um sujeitinho atarracado, que caminhava bambeando feito Carlitos.

– Acho que pra lá do fundo do poço – disse Epa, admirado com o diagnóstico.

– Acha? Então não tem certeza?

Epaminondas admirou-se de novo e decidiu dar corda.

– Levei 16 horas pra chegar aqui numa Brasília furreca, fui multado quatro vezes, moro com minha mãe, tenho uma namorada e não sei se gosto dela e dobro caixas há 12 anos, ou dobrava, pois acabo de ser demitido. Como você chamaria isso senão fundo do poço?

– Chamaria de oportunidade.

– Oportunidade de quê? Cortar os pulsos?

– Isso é com você, mas antes diga-me: você gosta da Brasília furreca? De morar com a véia? De dobrar papelão? De ter uma relação sonolenta com a namorada?

– Não. Não. Não. Não.

– Já é um começo. E o que você deseja no lugar desse tédio?

– ???

– Que vida você queria ter no lugar da sua vidinha sem sentido?

Epaminondas nunca tinha pensado nisso.

– Ah, eu… eu… eu queria um carro novo, minha própria casa, um trabalho que me realizasse e queria…

– Queria…?

– Queria comer minha namorada como nunca comi!

– E por que não se mexe?

Até um vira-lata ergueu as orelhas no outro lado da rua pra ouvir a resposta.

– Porque… porque…

O pescador juntou quatro pedrinhas do meio-fio e alinhou-as na calçada, apontando.

– Um, o que você quer. Dois, o que você pensa. Três, o que sente. Quatro, o que faz. Pras coisas darem certo e a vida fluir, essas quatro coisas precisam estar alinhadas. Faz sentido pra você?

Epa fez que sim com a cabeça. O vira-lata também. Então o pescador desarrumou as pedrinhas.

– O seu problema é que você quer uma coisa e faz outra. Isso gera conflito, culpa, tédio e a sensação de mexer-se mas não sair do lugar. Confere?

– Confere! Eu sou um bosta… – confessou Epaminondas, desalentado.

– Você habituou-se a uma vida pequenininha e nunca lhe ocorreu que merece viver uma vida feliz. Só isso.

– E tem como sair dessa?!

– Já ouviu falar em coaching? – perguntou o baixinho.

Epaminondas nunca tinha ouvido falar disso e talvez você também não, mas acontece que o pescador além de pescador era coach – que é o profissional do coaching e não apenas técnico de futebol em inglês – e Epa resolveu fazer algumas sessões de coaching com ele.

Se deu certo?

Isso quem pode dizer é o Epa – que agora, aliás, não quer mais ser chamado de Epa mas de Ondas porque está aprendendo a surfar. O que posso dizer é que três sessões de coaching depois ele entrou na casa da namorada como se quisesse comê-la do jeito que nunca comeu e foi exatamente isso que Ondas fez. E depois do amor, fumando o cigarro de praxe, ele foi avisando:

– Te prepara, Amélia, porque decidi abrir um negócio, procurar um apartamento pra nós e fazer uns quatro filhos!

(texto originalmente publicado na  revista eletrônica Dicas & Lançamentos) / imagem: CarbonNYC

SOBRE O AUTOR

Formado pela Sociedade Brasileira de Coaching (SBC) e pelo Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), o Marco é practitioner em Programação Neurolinguística (PNL) e Emotional Freedom Techniques (EFT). Certificado em Psicologia Positiva pela metodologia do professor Tal Ben-Shahar, de Harvard, é coautor do livro Saúde Emocional (Editora Ser+), colaborador do blog da Sociedade Brasileira de Coaching e colunista convidado do Obvious, o maior site colaborativo de cultura em língua portuguesa. Estudou psicologia junguiana, noética e pensamento sistêmico, além de trabalhar como ghost-writer – que é quem coloca em palavras as ideias de muitos autores que você lê. Criou junto com a Mariana o Eu & Nós, primeiro site brasileiro sobre Coaching de Relacionamento.

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