Casando com as próprias expectativas | Eu & Nós

Casando com as próprias expectativas

O resultado é que depois do casamento, quando a convivência traz à tona o lado verdadeiro e humano de cada um, sentimo-nos de certa forma enganados.

Por Carolina Fernandes

ilustração de noiva e noivo do início do século vinteQuando pensamos em casamento utilizamos nosso referencial cultural, que normalmente se baseia em idealizações construídas a partir das relações que conhecemos e das experiências aprendidas com o casamento de nossos pais, parentes e amigos – que servem de parâmetro para o tipo de casamento que desejamos ou não para nós.

Pesando do outro lado da balança está a idealização social de qualquer casamento: um mar-de-rosas onde o casal navega sempre sorrindo, como numa propaganda de creme dental.

Ele é atencioso, fiel, inteligente, bom papo, compreensivo, divertido, viril, autoconfiante e financeiramente estável. Ela é bonita e está sempre bem arrumada, é boa de cama, ponderada, leal,  incansável, simpática, faz uma comidinha deliciosa e é uma ótima mãe.

Esse homem e essa mulher existem da forma exata como os projetamos?

Todos concordarão que não, mas quando a mulher encontra um homem com algumas destas qualidades, muitas vezes acaba deixando de lado a relação em si e prioriza os benefícios que este companheiro traz no âmbito afetivo. E os homens, claro, fazem o mesmo.

O resultado é que depois do casamento, quando a convivência traz à tona o lado verdadeiro e humano de cada um – e junto com ele os defeitos e características de personalidade e de temperamento –, sentimo-nos de certa forma enganados. Nossas ilusões se desfazem e a realidade joga areia nas expectativas de um casamento perfeitinho.

“Ele não sai desse maldito sofá, passa a noite na frente da TV!”

“Chego em casa cansado e o jantar ainda não está pronto?!”

Como resolver isso e salvar a relação?

Por mais dolorido que seja, o primeiro passo é compreender que esse tipo de casamento não pode ser salvo porque nunca existiu de fato: cada um casou com um ideal de relacionamento. Depois é preciso realizar internamente um novo casamento: desta vez com a pessoa real que está diante da gente – que tem inúmeras qualidades, mas também tem defeitos e necessidades, como nós.

Por fim é essencial entender que as diferenças entre os dois não são apenas normais, mas indispensáveis para dar um sabor gostoso à convivência – não algo que precise de conserto. E amar a pessoa como ela é também nos mostra o caminho para nos amarmos como somos, com nossas luzes e sombras.

É engraçado como muitas vezes o relacionamento dos outros parece mais consistente e harmonioso que o nosso. Mas essa comparação é outra ilusão, porque cada relação é única e não cabe numa propaganda de creme dental ou num filme açucarado.

imagem: clotho98

SOBRE O AUTOR

Carolina Fernandes é psicóloga, professora e supervisora do Curso de Especialização em Psicoterapia Focada na Sexualidade (CEPES) do Instituto Paulista de Sexualidade (INPASEX). Seu tema é isso mesmo que você está pensando... aliás, ela nos convida a pensar menos e sentir mais na hora do love.

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