A visão de um menino cego | Eu & Nós

A visão de um menino cego

Há cegos que enxergam e olhos saudáveis que não veem nada.

Por Kiko Freitas

imagem de um olhoManhã de outono no Rio de Janeiro. Saí da Urca rumo ao centro antigo para levar Helena aos velhos casarios de Santa Teresa, da Lapa e aos sebos de livros da cidade velha.

Pegamos o pequeno ônibus que vai da Urca ao metrô de Botafogo e fomos acompanhando o tranco batido pelo asfalto irregular e maltratado da cidade, entre curvas bruscas e aquela já conhecida polifonia de buzinas, motores e xingamentos. No meio do trajeto, um menino cego entrou no coletivo e eu me levantei em meio aos arrancos do motorista para ceder meu lugar ao pequenino que tateava errante com sua bengala branca pelo corredor estreito.

O garoto agradeceu e sentou-se ao lado da Helena. Fiquei em pé perto dele até o fim da linha, próximo da entrada do metrô.

Quando descemos, notei que o menino caminhava perdido, meio como se não soubesse andar direito.

Aproximei-me e indaguei se ele vinha do Instituto Benjamin Constant para cegos, na Urca. “Eu sou de lá, mas agora fui visitar uns amigos noutro lugar”, respondeu. Perguntei se estava bem e se precisava de ajuda. “Eu não tenho autonomia de movimentos, a fila para aprender a usar a bengala no instituto é muito grande. Aprendi porque tenho muita vontade de andar, fui aprendendo com meus amigos”. Eu disse: “Vem com a gente, também vamos pegar o metrô para o centro”. Imediatamente senti sua pequena mão segurando firme meu braço direito e seus passos, agora mais confiantes, bem junto dos meus.

Coloquei o menino em um banco do trem e sentei-me com Helena bem na frente dele. Durante todo o trajeto fiquei olhando para ele e meditando na imagem daquela criança andando num trem embaixo da terra, sem poder ver nada, seguindo rumos incertos, guiado apenas pela vontade de andar. Perguntei onde desceria e o menino respondeu que ia para o Largo da Carioca, um caldeirão de grande movimento do centro do Rio. Quando a porta do trem se abriu e vi o menino vagando na correnteza de gente que ia e vinha, automaticamente corri na sua direção, como se corresse para junto de alguém da minha família, e falei de novo com ele. Assim que ouviu minha voz, senti de novo sua mão segurar firme no meu braço.

Perguntei seu nome. Ele disse: “Wonder”.

Um arrepio correu pelo meu corpo e alma. Minha boca secou e os olhos se encheram de um pranto que tentei conter.

Então ele me pediu para deixá-lo na entrada do Edifício Central. E como foi difícil deixá-lo ali, de frente para um pilar de concreto gelado, em meio àquela multidão de vendedores, transeuntes apressados, trabalhadores, desocupados e pedintes. Um menino cego e só.

Então indaguei qual o sentido desse filme chamado vida de que todos participamos.

Wonder. Está no dicionário. Perguntar a si mesmo. Maravilha.

SOBRE O AUTOR

Depois de passar a infância entre sonhos, médicos, frustrações escolares, amores e uma permanente falta de ar, encontrou na música a cura e o Pulso Interior. Músico profissional, é baterista de João Bosco e já trabalhou com Michel Legrand, Ivan Lins, Francis Hime, Nico Assumpção, Gonzalo Rubalcaba, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, David Goldblatt, Jeff Andrews, Frank Gambale, Jeff Richman, Daniel Santiago, NDR Big Band e Wladyslav Sendecki. Lecionou como professor convidado na Stockholm Royal Academy, Conservatorium Von Amsterdam, University of Rotherdam, University of Göteborg, Malmö University, University of Örebro, Columbus University e Hamburg Music School. Viaja o mundo tocando e buscando levar um pouco de alegria a quem quer ouvir, vivendo a maior parte do tempo pelos ares dentro de aviões, no mundo dos sons e em quartos de hotel. É filho de Beatriz e discípulo do Mestre Yoganandaji.

Comentários do Facebook

5 Comentários

  • 24/10/2011 - 18:08 Carlos Afonso de Castro Beck

    Maravilhoso mesmo como diz o Thiago! Ao mesmo tempo é possível sentir na pele a escuridão que envolve o menino e a angústia de quem em meio ao cotidiano consegue ver a vida com outros olhos.

  • 30/10/2011 - 16:55 Ione Freitas

    tenho várias palavras p’ra descrever tudo isso, emoção, orgulho de ti meu irmão e muito carinho, meu bju e fica sempre com Deus , que ele te guarde sempre

  • 30/10/2011 - 19:20 sandra fonseca

    O que mais um descendente de poetas, educadores e pensadores poderia fazer além de escrever com delicadeza e sentimento? Lindo!

  • 2/11/2011 - 13:07 V.V.Franco

    A boca fala , e a mão escreve daquilo que o coração esta cheio.

    Fraterno Abraço com a Paz dos Mestres

  • 2/11/2011 - 23:01 Luiz Mauro Filho

    Sou cada vez mais seu fã, pela pessoa que és, antes de qualquer coisa. Honra em ser teu amigo.

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