A lição dos pássaros | Eu & Nós

A lição dos pássaros

Aprendi muito com esses e outros pássaros que cruzaram meu caminho – aprendi sobre a coragem do voo e do mergulho no vazio. Sobre a certeza de que as asas estão lá e baterão se não forem cortadas.

Por Kiko Freitas

pássaro voando

(para ler ao som de Beyond the Missoury Sky, de Charlie Haden e Pat Metheny)

Em 2003 deixei o Rio Grande do Sul para viver no Rio de Janeiro. Uma guinada de 180 graus na vida. Mesmo na boa companhia de um ex-aluno, a viagem foi uma travessia solitária. Meu velho Renault preto – que batizei Endurance em homenagem ao heróico barco a bordo do qual Sir Ernest Shackleton enfrentou os mares antárticos – seguiu abarrotado de roupas, livros, uma bateria Premier Genista completa, alguns recuerdos da casa materna e muitos sonhos.

Antes de cruzar a divisa com Santa Catarina, parei no último posto de gasolina da querência para cevar um chimarrão. No instante em que sorvia o amargo surgiu sincronicamente sobre minha cabeça, dando voltas e rasantes, um quero-quero – ave-símbolo do Rio Grande, onde é conhecido como sentinela dos pampas. Quando escutei seu grito agudo foi como se gritasse junto com ele na lonjura. Um grito misto de liberdade, saudade e infantil coragem. Um grito de quem busca e teme.

Aquele quero-quero fez-me viajar no tempo e lembrar outro pássaro: o papagaio Dom Pedro.

Parceiro de conversas que iniciavam em silêncio e na maioria das vezes aconteciam apenas dentro da minha alma de criança, o papagaio ganhou esse nome porque foi o imperador daquele período da minha infância. Quantos momentos ele e eu, um menino asmático e solitário, compartilhamos naquelas infindáveis tardes de frio e chuva. Quantas confidências e alegrias em meio a sementes de girassol e à pequena bagunça que nos rodeava…

Um dia, com medo de uma possível fuga, resolveram cortar a asa de Dom Pedro. Mas isso não lhe arrebatou o sonho ou o amor ao vôo. Um dia ele subiu no parapeito da janela aberta, ignorou a falta de uma das asas e, talvez com a intenção de voltar depois de tão feliz experiência e contar-me tudo, mergulhou na realização de sua natureza como um pequeno Ícaro. Chorei por muito tempo aquela diminuta ausência verde.

Três anos depois do chimarrão, do quero-quero e das lembranças de Dom Pedro, eu me encontrava na Urca, totalmente sozinho num minúsculo apartamento lotado de instrumentos e garrafas de vinho. Distante dos afetos, caminhava todas as madrugadas pela pequena mureta de pedra que costura a costa onde dormem os barcos e pequenas ondas lambem as rochas.

Até a noite em que encontrei um pássaro pousado numa pedra à beira d’água a mirar o mar.

Meu coração bateu acelerado e tive um quase-medo da sua aparição silenciosa e seu porte de príncipe. Vestia as penas mais lindas que jamais vi, cores imponentes, misteriosas, que o tornavam rico em sua simplicidade. E é quase inacreditável que neste 2012, três anos depois daquele primeiro encontro, o mesmo pássaro siga sendo meu companheiro nas madrugadas da Urca, solitários nós os dois.

Aprendi muito com esses e outros pássaros que cruzaram meu caminho. Aprendi sobre a coragem do voo e do mergulho no vazio. Sobre a certeza de que as asas estão lá e baterão se não forem cortadas. Sobre a imobilidade e introspecção no silêncio das noites. Sobre a confiança na natureza da força interior e na força perfeita da natureza. Sobre o prazer absoluto envolvido no ato simples e divino de voar. Sempre.

Cada um a seu modo.

imagem: John&Fish

SOBRE O AUTOR

Depois de passar a infância entre sonhos, médicos, frustrações escolares, amores e uma permanente falta de ar, encontrou na música a cura e o Pulso Interior. Músico profissional, é baterista de João Bosco e já trabalhou com Michel Legrand, Ivan Lins, Francis Hime, Nico Assumpção, Gonzalo Rubalcaba, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, David Goldblatt, Jeff Andrews, Frank Gambale, Jeff Richman, Daniel Santiago, NDR Big Band e Wladyslav Sendecki. Lecionou como professor convidado na Stockholm Royal Academy, Conservatorium Von Amsterdam, University of Rotherdam, University of Göteborg, Malmö University, University of Örebro, Columbus University e Hamburg Music School. Viaja o mundo tocando e buscando levar um pouco de alegria a quem quer ouvir, vivendo a maior parte do tempo pelos ares dentro de aviões, no mundo dos sons e em quartos de hotel. É filho de Beatriz e discípulo do Mestre Yoganandaji.

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01 Comentário

  • 11/9/2012 - 23:01 Ari

    Dom Pedro segue entre nós!

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