A gaveta do tesão! | Eu & Nós

A gaveta do tesão!

Você sabia que seu prazer sexual está guardado na última gaveta enferrujada de um velho arquivo?

Por Martin Pörtner

lagartixa no umbigo de uma mulher

Quando estamos na cama com alguém delicioso, nossa coreografia sexual depende de um arquivo cheio de pastas com instruções neurológicas sobre como agir nessa hora.

O arquivo tem três grandes gavetas. A de cima é a mais nova, chama-se córtex cerebral e cuida da linguagem, o blá-blá-blá do momento. A do meio atende pelo nome de sistema límbico e administra as emoções e sentimentos. A última gaveta, meio enferrujada – ela existe desde o tempo dos dinossauros –, é o cérebro reptiliano, um pequeno conjunto de estruturas nervosas enterradas na parte mais profunda da massa cinzenta.

Na hora do bem bom, o réptil que mora na terceira gaveta é quem cuida dos aspectos, digamos… ousados. Sim, porque ele é prático, imediato e seletivo, e obedece a uma regra básica:

é movido a prazer!

O cérebro reptiliano também se encarrega de convencer o bem-falante córtex e o emotivo sistema límbico a sair de cena – ou pelo menos a adaptar-se a ele. Sem perder tempo com o politicamente correto, o lagarto neurológico manobra a formação das sentenças no centro da fala e modula as zonas receptivas da linguagem para que tudo o que você diz fique mais interessante. Também convoca neurônios para deixar as mãos, pernas e tronco prontos para a ação. No homem, ele mantém o enchimento peniano; na mulher, impede que as zonas erógenas deixem de ser o centro do universo.

O cérebro reptiliano é quem garante a satisfação sexual.

Mas, se tudo é assim tão claro e bem amarrado, se somos meio répteis, por que os consultórios especializados vivem cheios de homens que falham e mulheres que travam?

A resposta está nos estudos de neuroimagem durante o orgasmo (veja a primeira parte deste ensaio). A área do pensamento e a das ideias, a possibilidade de reflexão ou de evasivas, tudo isso deixa de funcionar. Na verdade, precisa deixar de funcionar. Bye, bye córtex.

O mesmo vale para as zonas que controlam sentimentos, amores, ódios, empatia, simpatia, antipatia. Adiós, sistema límbico.

Sob as chicotadas da cauda do lagarto, o corpo, os sistemas de manutenção da homeostase e o cérebro reptiliano puxam os cordéis.

Instala-se uma incrível fluência verbal para dizer o que, num contexto normal, soaria ríspido, deseducado, até chocante. De igual modo, quem escuta passa a ter um processamento excitante, liberado de censura. O cérebro reptiliano também faz com que, mesmo bruscos ou invasivos, os movimentos corporais atraiam, exaltem, se tornem sexualmente estimulantes.

Por influência do lagarto, a fala na cena sexual beira ameaças que soam como pedidos, aparenta chantagens que viram moeda de troca, inclui exigências parecidas com sugestões a ser aceitas. Quem usa a linguagem que submete logo depois é submetido e vice-versa.

Quando fecha-se a gaveta enferrujada, depois da doce loucura, é como se a gente apertasse o botão de reset. A vida volta ao normal.

Mas vale lembrar que o lagarto sexual vive na escuridão.

Tudo à sua volta – o neocórtex e o córtex límbico – precisa ser apagado antes que ele entre em cena. Não há penumbra nem meia-luz. Ou é escuridão, ou nada. Penumbra é cena sexual sem lagarto.

Daí porque vez por outra vale perguntar como anda minha coreografia sexual: ela é acompanhada pela empatia ou pelo lagarto?

imagem:  zio Gil

SOBRE O AUTOR

Martin Portner é médico neurologista, escritor e palestrante. Mestre em Neurociências pela Universidade de Oxford, escreveu "A Senha da Virilidade" (Editora Gente), "Inteligência Sexual" (Editora Gente) e "Genialidade na Palma da Mão" (Habilis Editora), além de disponibilizar o e-book "Empatia no Trabalho" na Internet. Em 2007 publicou na revista "Mente & Cérebro" o polêmico ensaio "Explosões de Prazer", que apareceu na revista "Scientific American" com o título "The Orgasmic Mind: the Neurological Roots of Sexual Pleasure". Martin dedica-se a pesquisar a fascinante relação do cérebro com a mente, além de temas ligados à sexualidade, intuição, empatia e criatividade. Mora na serra gaúcha e é casado com a artista plástica Angela Maria.

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